Por Pedro Gonzaga
Luta de classes
Furibundo ao saber que a filha caçula, matriculada no mais seleto liceu da cidade, fora flagrada cabulando aula para manter intercurso sexual com um motoboy, o ex-sindicalista, explodiu:
- Como pôde fazer isso com o seu pai?
- Relaxa, velho…
- Não posso acreditar. Por que não namora um dos teus colegas, gente como a gente.
- Toma.
- O que é isso?
- O jornal de ontem.
O homem se reconheceu na foto. Acima, em garrafais, a manchete reproduzia o que ele dissera e que só era verdade nas entranhas da filha: “A luta de classes é coisa do passado”.
O broto
Outubro chegou, e só então os brotos pontilharam de verde os galhos da árvore no quintal. A menina acompanhava do quarto o atraso da primavera. Se até a natureza podia demorar um mês a mais para vir…
Um hipocondríaco
A cada ambulância branca, a certeza renovada: um dia será para mim.
Boletim do tempo
- Depois da chuva vem sempre o sol – disse a menina, faceira e inestática.
Para ela tudo era novo, as ruas de Londres, os vidros baços do pardieiro, lovely and charming para turistas.
- Vamos a Camden, vamos a Camden – gritou.
- Chove – respondi, cobrindo o peito murcho, as mãos ainda trêmulas do esforço.
- Mas olha ali, o céu já está clareando. Vamos, vamos logo!
Fé luminosa, crença singela de que o melhor virá com a simples seqüência dos dias…
Infinito aparente que é a juventude.
Liberta quae sera tamen
Aníbal estava cansado. Nunca suportara a poeira africana nos olhos. Por isso, conquistou a Espanha, cruzou os alpes no lombo de um elefante, tudo para chegar aos prados de Horácio, com os quais sonhara mesmo sem tê-los lido. Donde se depreende que nem Zama, nem o Arcadismo brasileiro foram males necessários.
Retirados de pedrogonzaga.wordpress.com. Para mais, o Pedro recomenda seu outro site, terradecossacos.blogspot.com.
Ocidentalismo
Para entender as trajetórias e referências da cultura ocidental
sábado, 4 de setembro de 2010
The future is not what it used to be
Isaac Asimov foi um dos mais importantes escritores de ficção científica e divulgadores da ciência de todos os tempos. Na entrevista abaixo - de 1988 - algumas singelas previsões sobre educação e o século XXI. Impressionante pela aposta arriscada... e pelos acertos extraordinários!
Duas notas poéticas... de rodapé
T.S. Eliot em The Waste Land (1922):
Not only the title, but the plan and a good deal of the incidental symbolism of the poem were suggested by Miss Jessie L. Weston's book on the Grail legend: From Ritual to Romance (Macmillan). Indeed, so deeply am I indebted, Miss Weston's book will elucidate the difficulties of the poem much better than my notes can do; and I recommend it (apart from the great interest of the book itself) to any who think such elucidation of the poem worth the trouble. To another work of anthropology I am indebted in general, one which has influenced our generation profoundly; I mean The Golden Bough; I have used especially the two volumes Adonis, Attis, Osiris. Anyone who is acquainted with these works will immediately recognize in the poem certain references to vegetation ceremonies.
Allen Ginsberg em Howl (1955):
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! The world is holy! The soul is holy! The skin is holy! The nose is holy! The tongue and cock and hand and asshole holy! Everything is holy! everybody's holy! everywhere is holy! everyday is in eternity! Everyman's an angel! The bum's as holy as the seraphim! the madman is holy as you my soul are holy! The typewriter is holy the poem is holy the voice is holy the hearers are holy the ecstasy is holy! Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cassady holy the unknown buggered and suffering beggars holy the hideous human angels! Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks of the grandfathers of Kansas! Holy the groaning saxophone! Holy the bop apocalypse! Holy the jazzbands marijuana hipsters peace & junk & drums! Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy the cafeterias filled with the millions! Holy the mysterious rivers of tears under the streets! Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the middle class! Holy the crazy shepherds of rebellion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles! Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria & Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow Holy Istanbul! Holy time in eternity holy eternity in time holy the clocks in space holy the fourth dimension holy the fifth International holy the Angel in Moloch! Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the locomotive holy the visions holy the hallucinations holy the miracles holy the eyeball holy the abyss! Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours! bodies! suffering! magnanimity! Holy the supernatural extra brilliant intelligent kindness of the soul!
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
A humanidade em "chiaroscuro" - nós e as "Luzes", parte I
Por Eduardo Wolf
Se você, como eu, não tem mais nenhuma paciência com os nossos suplementos culturais locais (tipo "Ilustríssima", a folha cultural do José Dias - esticando com superlativos a falta de idéias), então certamente já foi atrás de coisas mais interessantes para ler em outras praias, buscando águas mais límpidas e menos rasas. Uma boa dica - entre tantas, hoje em dia - é o City Journal, conhecido de alguns leitores do Ocidentalismo.org, se não de longa data, ao menos desde que o Leandro Oliveira postou trecho de um ensaio de Theodore Darlymple, na verdade Anthony Daniels, médico e psiquiatra inglês.
Daniels é um prosador elegante, um ensaísta instigante, que combina sempre originalidade com consistência - coisa que, convenhamos, não é fácil. Colaborador da New Criterion, ele é hoje mais conhecido do público brasileiro graças às contribuições exclusivíssimas que tem feito à revista Dicta&Contradicta, a revista que é a "nave-mãe" da qual vem surgindo tanta coisa bacana na vida intelectual da pátria amada nos últimos anos.
O último texto de Darlymple para o City, por exemplo, é um peça ensaística que comprova minha descrição. A começar pela escolha de um gancho saborosíssimo que vai lhe permitir chegar ao seu tema. No lugar de um texto duro e pesado sobre um problema tão grave como o da natureza do Mal, o leitor se depara, antes de mais nada, com um pequeno histórico de uma das polêmicas de Samuel Johnson, nesse caso, sua resenha devastadora do livro de Soame Jenyns, A Free Enquiry into the Nature and Origin of Evil. Mas esse é só um dos exemplos da elegância - ou, por que não?, da bossa - do texto de Darlymple. Mais adiante, comentando uma das teses centrais do livro de Jenyns, somos conduzidos a um breve passeio pela vida de Alexander Pope, não gratuitamente, é claro, mas com o evidente objetivo de apresentar um argumento para a discussão.
(Claro, se você está lendo meu texto, certamente você não é o tipo de pessoa que espera que eu entregue o doce, assim, tão fácil: isso é só chamarisco para você ler de fato esse excelente ensaio de Dr. Daniels).
Tudo isso seria suficiente para que tivéssemos uma leitura prazerosa, sem dúvida. Is that all? Claro que não. Nem toda elegância do mundo pode salvar um texto sem idéias - e, desse mal, como o leitor já deve ter suspeitado, Darlymple não sofre. A polêmica de Johnson com Jenyns, a tese deste sobre a origem do mal natural e sobre como devemos encará-lo, o contra-exemplo a partir da vida de Pope: tudo está a serviço de uma visão original acerca do problema do mal.
Modernos
But I wept as I listened to the Fourth Quartet. Now I know for certain that you are the last Classical composer: your cradle was Beethoven's Grosse Fuge, where there is none of that Russian, French, or English folklore, and the barbarism of presenting a symbol instead of a direct experience. . . . Bach, Beethoven, and Schoenberg are the last composers capable of erecting a musical structure that can — must — be regarded as an organic world. . . . All music but theirs is either galvanized, artificially stimulated folkweave . . . or purely abstract geometry with queer sounds and odd effects touting for the listener's custom.
Oskar Kokoshka para Arnold Schoenberg, em carta de agosto de 1949.
Arnold Schoenberg, "String Quartet No. 4" Op. 37. Primeiro movimento: Allegro molto, energico. Gravação realizada pelo Kolisch Quartet, sob a supervisão do compositor.
Para gravação do Arditti Quartet, clique aqui.
Oskar Kokoshka para Arnold Schoenberg, em carta de agosto de 1949.
Arnold Schoenberg, "String Quartet No. 4" Op. 37. Primeiro movimento: Allegro molto, energico. Gravação realizada pelo Kolisch Quartet, sob a supervisão do compositor.
Para gravação do Arditti Quartet, clique aqui.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Em 1966 como em 2010

Charge de Reginaldo Fortuna, publicado pelo "Correio da Manhã" (1966). Pertinente ali como aqui, por motivos diferentes, é claro.
Retirado do site do Millôr.
O Fogo Divino, os santos e os pecadores
A riqueza do simbolismo religioso é uma das permanentes fontes do conhecimento da humanidade - e neste sentido, podemos tranqüilamente falar de um certo ecumenismo, posto que as mais importantes referências simbólicas religiosas, para serem fundamentais devem antes ser universais. Mas, é claro, o problema do símbolo não reside em sua expressão, mas sua interpretação. É ali sobretudo, como objeto de cultura, que tal "ecumenismo" naufraga: a parte a clareza do símbolo, existem distinções teológicas evidentes e importantes que devem ser entendidas e interpretadas permanentemente, e preservadas ou não. No texto abaixo, Joel Pinheiro da Fonseca se debruça mais uma vez sobre um problema universal - a da puniçao e o juízo - relendo-o a partir de sua expressão última e radical: o fogo do inferno cristão.
Por Joel Pinheiro da Fonseca
Partiram de Sucot e acamparam em Etam, na periferia do deserto. O Senhor os precedia, de dia, numa coluna de nuvens, para lhes mostrar o caminho; de noite, numa coluna de fogo para iluminar, a fim de que pudessem andar de dia e de noite.” Êxodo 13, 20-21
"A coluna de nuvens que estava na frente postou-se atrás, metendo-se entre as tropas dos egípcios e as de Israel. Para uns a nuvem era tenebrosa, para outros iluminava a noite, de modo que durante a noite inteira uns não podiam ver os outros.” Êxodo 14, 19-20
"A coluna de nuvens que estava na frente postou-se atrás, metendo-se entre as tropas dos egípcios e as de Israel. Para uns a nuvem era tenebrosa, para outros iluminava a noite, de modo que durante a noite inteira uns não podiam ver os outros.” Êxodo 14, 19-20
Já defendi em outro lugar - e é uma tese em nada estranha à autêntica tradição cristã - que a punição do inferno está intrinsecamente ligada ao estado da alma ao qual ele corresponde: amar uma criatura mais do que ao Criador. Preferir um bem finito e relativo ao Bem absoluto, que é a única fonte possível da felicidade humana, é condenar-se à miséria eterna. A dor sensível é decorrência do mau moral.
Hoje quero explorar um ponto ligado a essa idéia: a dor dos condenados e o deleite dos santos provêm do mesmo objeto. Toda a diferença entre a alma em estado de beatitude e a alma condenada reside na disposição delas perante Deus. Quero ilustrar isso com a imagem do fogo, muito cara à tradição católica, que é composta basicamente da Bíblia, dos ensinamentos magisteriais e dos escritos de santos e místicos.
A primeira imagem que nos vêm à cabeça quando falamos de fogo num contexto cristão é o Inferno. A dor dos condenados sendo consumidos por seus próprios crimes, remorsos e desejos maus é comumente representada pelo fogo, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O próprio Cristo, por exemplo, explica a parábola do joio e do trigo: “O joio são os filhos do maligno. [...] Como se junta o joio para ser queimado ao fogo, assim acontecerá no fim do mundo. O Filho do homem enviará os anjos e eles recolherão do Reino todos os escândalos e todos os promotores da iniquidade, e os jogarão na fornalha de fogo, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13, 38.40-42). O remorso e o desespero de se saberem claramente maus consome a alma dos condenados; os desejos desordenados de sua vida agora queimam com intensidade máxima; com a morte, a alma dirige-se, determinada e sem titubeios, àquilo que amava em vida. O fogo é uma imagem particularmente forte: é aquilo que a tudo consome e destrói, implacável e doloroso.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Pensamento sério no Brasil?
Artigo extraordinário no nosso site-irmão, a Dicta&Contradicta. É de Felipe Cherubini e tem por título "A Redescoberta da Filosofia no Brasil". A coisa é longa mas de bom calibre e dividida, até o momento, em três partes que podem ser acessadas aqui (a Introdução ou Panorama Geral), aqui (sobre Mário Ferreira dos Santos) e aqui (Vicente Ferreira da Silva).
Aguardamos ansiosamente a continuação para abrir os debates - sim, acho que teremos alguns debates a respeito.
A menor distância
"Laughter is the closest distance between two people"
Victor Borge (1909 - 2000)
Por Leandro Oliveira
Um tipo muito sofisticado de clown desapareceu. Ele ocupava as salas de concerto não para fazer o público rir à la Haydn (explico isto em outro post)e sim através de paródias musicais, "contação de histórias" pseudo-biográficas, tiradas de palco cartoonescas.
Nesta arte o pianista dinamarquês Victor Borge (1909 - 2000) foi um pioneiro e mestre. Poucos anos após seu primeiro concerto importante em 1926, Borge iniciou um show que misturava curiosamente música e brincadeiras de palco, numa apropriação muito particular das técnicas de stand-up comedy.
Segundo consta, em 1933 começou a excursionar pela Europa colocando em seu repertório piadas anti-nazistas - o que teria feito com que na ocasião da ocupação alemã na Dinamarca, ele tivesse que fugir para os Estados Unidos.
Foi a partir de programas de rádio que Borge encantou imediatamente as platéias americanas. Algumas de suas tiradas como a "pontuação fonética" (uma forma de ler os textos com todos seus sinais) e a "linguagem inflacionária" (que valendo-se da lembrança dos anos difíceis da Grande Depressão, subvertia alguns dos usos ordinários das palavras inglesas) são verdadeiros achados do humor moderno.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Não deixe de votar!
Eleições para o Prêmio Macunaíma - o herói sem caráter do mês: teremos ainda dez dias de votação. Para saber mais sobre os indicados do mês, clique aqui.
Deixa de preguiça!
Deixa de preguiça!
Parole, parole...
Por Leandro Oliveira
Já que Talyta termina seu mestrado distinguindo o talento do esforço, e Julio comenta en passant sobre as agruras sádicas das bancas de doutorado, vou também falar de educação. Um sistema mais hardcore, para não decepcionar aqueles que me conhecem e sabem que não sou dado a gentilezas.
Por isso, entro de sola no Medievo. E, pois não, o sistema educacional da Idade Média revela surpresas extraordinárias - não para o leitor habitual do Ocidentalismo é claro, mas certamente para boa parte do público brasileiro. No país tropical, tão bonito por natureza, o grande público ainda está acostumado - e percebo isso nas aulas que dou pelo interior de São Paulo - a entender o pensamento do Medioevo como o da "era das trevas"...
O que, aliás, é irônico, estando o Brasil com a educação iluminada que estamos.
"Tudo isso foi documentadamente desmentido, mas pouco importa: os lugares-comuns emocionais são tanto mais indestrutíveis quanto melhor servirem aos interesses dos ativistas políticos", nos ensinava o saudoso Wilson Martins. Então é assim. Hoje as escolas de elite estão mais preocupadas com o ensino de história de uma África idílica e inexistente conquanto reverbere maledicências ignorantes sobre a Europa. Curioso que não deveria sê-lo, mesmo estando nós orgulhosamente mestiços e ecléticos, pois já na primeira metade do século XX, scholars como Mortimer Adler, Robert Maynard Hutchins e Chäim Perelman, cada um a sua maneira, entenderam e advogaram sobre a relevância e atualidade das práticas de ensino medievais não por chauvinismo, eurocentrismo ou qualquer dessas patacoadas. Não por conservadorismo - embora boa parte deles fossem conservadores - mas por sua relevância inquestionável.
Mas onde está a relevância, bicho?
Como assim "onde está"? Dorothy Sayers em seu famoso artigo The lost tools of learning de 1947 (!) já mostrava que a primeira parte das chamadas Artes Liberales condensava muito mais que matérias curriculares como entendemos hoje, mas disciplinas que "ensinavam a aprender". Sofisticado? Sim, e sem "construtivismos" idiotizantes.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Not Enough Silence
John Cage comenta que onde quer que estejamos ouvimos mais do que tudo ruídos. E completa: quando os ignoramos ele nos perturbam; quando prestamos atenção, eles nos fascinam. A reflexão de Julio Lemos não deixa de ser um desdobramento provocativo da tese de Cage. Afinal, se os ruídos - reais ou metafóricos - estão em toda parte, e é nossa ignorância e atenção que os julga pertinentes ou desagradáveis, será também o nosso esforço e reconhecimento antes de tudo que permitirá estarmos à altura desta ocasião sublime que é a presença rara e cara do silêncio.
Por Julio Lemos
Como disse há um tempo, rola um pouco de death metal nas bancas de doutorado das melhores faculdades (e às vezes um pouco de black metal norueguês). Uma vez assisti a uma defesa de doutorado em que os primeiros 10 minutos foram marcados por uma ausência completa de elogios — sabemos que é costume elogiar um pouco para só em seguida, preparado o terreno, partir para as objeções. E sem tempo para que o candidato pudesse anotá-las; tudo muito bem calculado para provocar havoc and destruction. Ao final o candidato nem entendou como foi aprovado. Mas eu entendi. O show acaba e os headbangers voltam felizes e embriagados para as suas casas e dizem boa noite para a vovó e para seus ursinhos de pelúcia.
A fórmula acadêmica é: terror, terror, terror, e depois aprovação.
Quase tudo na vida é sofrimento temporário — antes que possamos pensar na dor que sentimos, a coisa se vai. A dor é sempre uma expectativa. Dia desses fui fechar o portão do prédio e meti o cotovelo, naquela partezinha ‘por favor não encoste nada aqui’, no trinco. A coisa parece que entrou até o osso. Depois passou. Mas se me dissessem: “por favor, me dá o seu cotovelinho aqui que eu lhe vou aplicar uma leve bordoada com esse trinquinho de ferro”, eu sairia correndo. Numa cena de Andrei Rublev, um mártir é torturado até a morte com essa técnica de antecipação: os instrumentos são mostrados, muitas palavras são gastas a fim de dar um ar infernal de sofrimento à ocasião. Isso é sofrimento. Mas depois o sujeito morre e está em paz (presume-se).
All that jazz
O Smalls Jazz Club fica na 183W 10th Street, no Greenwich Village em Manhattan. Mas quem está sem tempo de fazer esta visitinha a Nova Iorque consegue ouvir os grupos de jazz que por lá se apresentam pelo site do clube - que transmite ao vivo as apresentações e guarda um enorme acervo com o aúdio das performances disponíveis aos visitantes.
Quem mandou o link foi Norberto Freund. Fica o agradecimento. Espero que vocês desfrutem como eu!
sábado, 28 de agosto de 2010
Papo de Facebook. Ou: Como meus amigos são inteligentes!
Felipe Pimentel
O maior delírio que você pode ter é julgar que a história tem um sentido (seja em significado, seja enquanto teleologia): isso é o que caracteriza, clinicamente, uma paranóia. Marx, o maior apologeta desta alucinação (filhinho de Hegel), julgava que a inexorabilidade do destino civilizatório era sua própria idéia. Ora, não vejo nenhuma diferença entre isso e Schreber.
Pedro Gonzaga, Leandro Oliveira e Giovanni Rolla curtiram isso.
Comentários:
Julio Lemos
A melhor refutação dessa idéia veio de um professor meu, José Reinaldo de Lima Lopes. Ele a expressou em poucas palavras: se não conhecemos o futuro, não podemos apreender a história como um todo; se ela não é, em razão disso, objeto de conhecimento total ('in toto'), não pode ter um sentido [vez que o sentido supõe conhecimento 'in toto']. Parece conexa a isso a afirmação de Aristóteles de que só podemos saber se um homem é feliz após a sua morte; mas enquanto os indivíduos morrem, a história se estende indefinidamente. Podemos julgar um período histórico, mas não toda a História, como queria Hegel (e Marx, mesmo invertendo-a via Feuerbach/materialismo). E outro ponto: como a história pressupõe escolhas livres, que são a rigor imprevisíveis, a liberdade será sempre uma pedra no sapato na absurda busca pelo sentido da história.
Oasis e o jazz...
Por Leandro Oliveira
O "Jazz", se preciso fosse uma definição, seria antes de tudo o gênero baseado na permanente reestruturação em performance de estruturas musicais reconhecíveis - reestruturadas a partir de alguns parâmetros mais ou menos herméticos e que devem, por um lado, à permanente inserção e reconhecimento dos standards originais, por outro à inventiva criatividade disponibilizada pela mistura de duas "tecnologias" distintas: a partitura e o fonograma.
Ufa!
Pois se a tradição da música clássica entrou em colapso foi exatamente naqueles sub-gêneros específicos onde o suporte escrito era mais do que essencial e impossível de dissociação da performance. Por isso é que no século XX os gêneros mais elaborados como a Sinfonia, por exemplo, entram em franco declínio - como gênero ela é intrinsicamente ligada às estruturas "discursivas" do século XVIII ou (com Beethoven a reinventando) à mentalidade de construção "orgânica" que será tão cara à estética romântica.
Assim como as técnicas e demandas do discurso público se tornam paulatinamente obsoletas, a estrutura da Sinfonia se torna crescentemente esotérica. No século XX seu único defensor regular de alto nível foi Shostakovich - que se vale de forma bem particular do gênero a partir dos destroços deixados por Mahler e Sibelius.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Você tem talento?
Algumas pessoas transpõem montanhas com aparente facilidade, outras sequer conseguem organizar o equipamento necessário para a escalada. O fato é que cada um de nós é talentoso para algumas coisas, e evidentemente inapto para tantas outras... Talyta Carvalho retorna explorando um pouco a questão do que é ser genial, ter algum talento e - finalmente - cortar um dobrado para fazer coisas minimamente decentes.
Por Talyta Carvalho
Sou mestranda em fase final de pesquisa. Ora, o que isso quer dizer? Quer dizer apenas que experimento uma mistura de angústia profunda - em razão dos prazos apertados, da cobrança pessoal para fazer um bom trabalho, e etc. – e uma eminência de felicidade intensa – afinal, o fim se aproxima, e ao que tudo indica, sobreviverei!
Ressalva: eu sinto esse mix de sentimentos somente quando não estou em dinâmica de surto, o que acontece com uma freqüência, digamos... ah, deixa pra lá!
Sofro do que os manuais de psiquiatria chamam de TOC? Não consigo parar de reescrever meu texto porque sou vítima de uma insatisfação intelectual crônica; por isso, sempre acho que o texto pode melhorar e fico reescrevendo-o até que uma boa alma me force a parar, (quando não é uma boa alma a cumprir esse papel quem o assume é própria Pontifícia que me manda recados singelos, cujo conteúdo é algo como “sua bolsa acabou, portanto, entregue logo essa dissertação”, mas, evidentemente, escrito com muito mais delicadeza do que eu sou capaz de expressar.)
A pergunta que o leitor deve estar se fazendo, provavelmente, é: “Por que diabos essa garota sofre de insatisfação intelectual crônica consigo mesma”? Respondo: Porque eu não sou talentosa.
Quem causa a Causa Primeira?
Joel Pinheiro da Fonseca é um wunderkind. Seu blog "Terra à Vista" é uma boa ilustração de como mesmo nos dias de hoje um jovem pode discutir filosofia e economia com os pés no chão. E pode? Certamente sim, e Joel parece não se fazer de rogado. Em seu texto de estréia para Ocidentalismo.org ele mostra que determinadas agruras do pensamento podem aspirar alturas enormes - intransponíveis, ousaria dizer - como, por exemplo, a que versa sobre a existência de Deus.
A pergunta sempre aparece nas conversas do dia-a-dia. Alguém dá o argumento da causa primeira para provar que Deus existe e o outro retruca: “E quem causou Deus?”. Minha conclusão: o argumento foi ou mal entendido, ou mal apresentado.
Tudo o que existe precisa de uma causa. Portanto, para não se regredir ao infinito, é preciso uma causa primeira. Essa causa primeira é Deus. Convencidos? Eu não estou. Se tem uma coisa que esse argumento não prova é a existência de Deus. O ateu sagaz já percebeu: “Bom, se tudo precisa de uma causa, então Deus também precisa. E se nem tudo precisa de uma causa, por que o universo precisaria?” Vamos esclarecer melhor o ponto, pois nele escorregam muitos apologetas. Bem sei que nenhum ateu sairá da discussão convencido e rumo à igreja; mas o fortalecimento da base racional da fé tem sua importância nesse processo.
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